Ontem quase tive um troço com uma reunião que tive com a Claudinha, Rodrigo e Marcus.
Rodrigo e Marcus são surdos e eles participaram de um treinamento em empreendedorismo na linguagem de libras (linguagem das mãos) para 17 surdos que moram em Belo Horizonte.
O treinamento foi facilitado pelo Rodrigo, que foi treinado por nós na metodologia CEFE e hoje treina centenas de surdos utilizando metodologia participativa com oficinas de criatividade, criação de novos negócios, planejamento, liderança, enfim, tudo aquilo que nós ouvintes temos a nossa disposição, nos disponibilizamos também para os surdos esperando assim quebrar o paradigma de que surdo somente pode ter trabalho em gráficas, computação e outros mais que exigem somente atenção.
O treinamento foi apresentado na CEFERENCIA (Conferência Latinoamericana de Empreenedorismo) que realizamos junto a Feira Nacional de Artesanato e foi filmado.
Na reunião de ontem a Claudinha queria mostrar para eles o filme no seu computador. Colocou o filme para rodar e foi ficando brava: POXA, NÃO SAIU O SOM! ESTA PORCARIA DE COMPUTADOR NUNCA FUNCIONA DIREITO! OLHA, ESTA NO MÁXIMO…DEVE TER ESTRAGADO O ALTO FALANTE! E eu fui ficando nervosa e tentava mostrar para ela, de forma despistada de que realmente o treinamento não ia ter som, afinal todos os participantes e facilitador eram SURDOS MUDOS, ou seja, ninguém falava, por isto não existia nenhum som a ser mostrado.
Ela custou a entender…
Complemento feito hoje…Claudinha lendo a bobagem que ela fez, me lembrou que mesmo que tivesse som, não ia adiantar nada…pois como eu disse, eles eram SURDOS MUDOS!
Hoje de manhã estive na Justiça do Trabalho por causa de uma ação que uma ex funcionária da Mãos de Minas moveu…
Se considerarmos que no Grupo de Desenvolvimento já passaram mais de 700 funcionários nestes vinte anos de existência e até hoje já tivemos no máximo umas 10 ações, esta até bom.
Mas fico horrorizada com o que acontece lá. O Grupo de Desenvolvimento tenta estar sempre dentro da lei. Nunca deixamos de pagar nada a ninguém, nunca atrasamos salário, nunca deixamos de cumprir o que foi combinado, mas dos casos que já tivemos, mesmo os tres que perdemos, acho um absurdo o que acontece.
Tivemos um caso de dois funcionários que foram pegos durante a Feira Nacional de Artesanato roubando carros no Expominas e vendendo convite da Feira. Foram presos e o juiz os condenou a serviços comunitários por serem primários. Evidentemente os mandamos embora por justa causa, porque foram presos roubando carros no horário de serviço. Entraram na justiça e o Juiz nos condenou a idenizá-los com a alegação de que “eles não podiam ser punidos duas vezes pelo mesmo erro”.
Teve uma funcionária da Sala do Empreendedor de Roraima, que quando fechamos em 2003, mandamos todo mundo embora (foram mais de 100 demissões no Brasil). Tinham 3 grávidas e estas, depois do cumprimento do aviso, mandamos para casa para quando terminasse a licença maternidade mandarmos embora. Esta moça de Roraima pediu para dispensá-la do aviso, pois tinha arrumado um emprego. Evidente o fizemos, pois não queríamos prender ninguém, já que a Sala do Empreendedor estava fechando. Dois meses depois ela nos procura, dizendo que estava grávida. Nos imediatamente nos propuzemos a voltar com tudo pra traz e mante-la no quadro. Ela disse que não podia, pois estava empregada e não podia ter outro emprego na carteira. então deixamos de lado. Pois não é que 10 meses depois ela entra na justiça pedindo idenização por danos morais por ter sido mandada embora grávida!
Teve um outro que ministrava cursos para nos e um monte de gente e alegou que a empresa que abriu foi somente para nos atender (apesar de ter tirado Nota Fiscal para um monte de outras pessoas).
Já tivemos muitos casos ao nosso favor também. Teve uma funcionária grávida que mandamos embora por justa causa por improbidade administrativa (fez uma série de desvios em beneficio próprio) e ganhamos as ações em todas as instâncias.
Mas todos os casos que perdemos achei injusto…Sei que existem empresas não idoneas que devem fazer poucas e boas com seus funcionários, mas a grande maioria é honesta e não merece a forma com que são tratadas no Ministério do Trabalho.
Uma vez, desenvolvemos a aplicação da Metodologia CEFE para pessoas que tem deficiência auditiva e usam a liguagem de Libras (linguagem de sinais) para se comunicar.
Tínhamos verificado que a maioria dos cursos oferecidos a este segmento eram cursos profissionalizantes nas áreas de informática, gráfica, e outros. Não existiam cursos de empreendedorismo, criação de negócios, gestão, enfim, ser empresário de sucesso.
Foi muito interessante, pois tudo era discutido e “falado” em libras e com isto formamos 15 multiplicadores com deficiência auditiva para poderem atuar no mercado. O projeto foi financiado pela Fundação Banco do Brasil com recursos do Ministério do Trabalho.
No último dia do curso, fomos a um restaurante para comemorar. Avisamos antes ao restaurante que eram pessoas que não escutavam, de forma que os garçons soubessem disto e não houvesse problema no atendimento.
No final, quando apresentaram a conta, colocaram 20 “couvert artistico”, pois segundo o maitre, haviam chamado um conjunto para tocar e animar a festa…
Foi uma briga para tirarem 15 do couvert artistico…Convencer o maitre que as pessoas que estavam lá não escutaram nada da música que foi tocada pelo conjunto que estava se apresentando…
A metodologia de trabalho da Sala do Empreendedor era o crédito assistido. O cliente buscava a informação sobre o crédito, recebia a visita de um agente, discutiam a possibilidade de financiamento e preenchiam a documentação. O cliente participava de um treinamento, onde após ELE PROPRIO, elaborava seu plano de negócio, se comprometendo assim com as informações colocadas, a após receber o emprestimo era visitado pelo menos uma vez a cada tres meses, pelo agente que o atendeu.
Tiveram diversos casos de sucesso. O mais importante, para mim, era quando o cliente ia para o treinamento disposto a finalizar seu desejo de crédito e descobria no final que o momento não era aquele, ou que o risco era muito grande, ou que deveria mudar e adiar a decisão do crédito, enfim, eram centenas de motivos que os clientes desistiam ou adiavam a decisão. Em média, isto acontecia com 30% das pessoas.
Teve um caso, de um açougue, que antes do treinamento o cliente queria comprar um freezer e depois do treinamento, fez do seu estabelecimento uma “boutique de carne”, vendo assim uma forma de se mostrar diferente. Hoje ele é o maior sucesso em Brasilia.
Teve um outro que queria comprar um carro utilitário, mas no treinamento descobriu que seu problema era a logistica interna e não a entrega. Trocou por um computador e mudança do lay out do estabelecimento.
Tiveram diversas parcerias que eram feitas de pessoas que se conheciam durante os treinanamentos e viam que poderiam se completar trabalhando juntos…
Ou seja, mesmo que todos os mais de 100.000 pessoas que receberam crédito não tivessem uma historia diferente para contar, tiveram uma mudança de atitude após participarem da Sala do Empreendedor.
Realizamos para o Sebrae Minas os primeiros Salão de Oportunidades – de 1994 a 1998.
A base do Salão eram as rodadas de Negócio.
Uma vez, a Eugênia ligou para um cliente e dentre outras perguntou: Por favor, qual é o seu fax? A pessoa respondeu…aguarde um momento e após alguns minutos voltou: é Toshiba! E a Eugenia muito séria falou: ah, quem bom, o meu é Panasonic, mas por favor, qual é o número do seu?
Em 1998 foi a vez da Africa do Sul realizar o Encontro Mundial. Na data eles lançaram o kit Best Game (que usamos até hoje no Brasil e é fantastico…) que consiste na simulação de uma empresa, que produz chapeus, pega um emprestimo num banco, compra materia prima, produz e vende.
No percurso do jogo, vão acontecendo simulações do dia a dia de uma pessoa…supermercado, doença na familia, nascimento de filho, pedido de ajuda de parentes, aluguel, etc etc etc.
Tinham tres grupos: um da Africa, um da Europa e um da América Latina – na simulação cada grupo tinha uma “empresa”.
Quando o facilitador chegou no nosso grupo e cobrou o “aluguel”, não tínhamos feito a reserva para o “pagamento”. Ele então todo feliz, exigia o pagamento do “aluguel”, querendo nos deixar numa situação dificil…não pensamos duas vezes: pegamos a “mesa”, que correspondia ao imóvel que ele estava cobrando o aluguel e dissemos, doravante vamos ser “sem teto”, mas vamos continuar a produzir debaixo “da ponte”.
Ganhamos o jogo…e ele ficou com cara de tacho sem ter reação para a criatividade dos latinoamericanos…
Cefe é a metodologia que usamos nos nossos treinamentos – Competência Economica na Formação de Empreendedores. É fantástica.
Surgiu no Nepal em 1986, desenvolvida pela GTZ do Ministério de Cooperação Técnica do governo alemão. Trabalha baseada em vivências, no desenvolvimento de competências empreendedoras.
Vamos realizar em novembro a CEFERENCIA, que será uma conferência com 250 Cefistas de toda América Latina, Central e Africa Portuguesa, mais os “ban ban ban” do Cefe Mundial que estarão também aqui conosco. Eberhard Baerenz vem da Alemanha, Jim Tomencko vem do Laos no Vietnã, Ed Canela vem da Filipinas, Clelia de la Fuente do Uruguai e Claudia Moura do Brasil.
Fiquei me pensando nestes 18 anos que trabalhamos com a metodologia e me lembrei do nosso primeiro fax que ganhamos de presente da GTZ quando realizamos o Primeiro Treinamento de Treinadores CEFE em lingua portuguesa em 1991. Quando o fax tocou…todo mundo do escritório foi para a frente dele super emocionado ao ver aquele papelzinho vir escrito com uma mensagem vinda da América Latina…Era nossa primeira inscrição e vinha lá: nome……., sexo “menino”. além de emocionante, foi muito divertido.
Ontem escutei na televisão o problema dos dekasseguis.
Me lembrei então, quando em 2001 a Fernanda, Diretora da Fundação Banco do Brasil, me ligou em nome da Heloisa Oliveira, Presidente da Fundação na época me perguntando se eu não poderia montar projetos para os dekasseguis. Nunca tinha ouvido falar neste nome e não tinha a menor noção do que era, mas fiz voz de inteligente e disse: perfeitamente, me dê até de tarde que te mando alguma coisa.
Fui correndo para a Internet e aí descobri o que era. Eram brasileiros, descendentes de japoneses que iam para o Japão trabalhar, muitas vezes em serviços de terceira categoria e voltavam para o Brasil depois de 4, 5 anos com uma poupança de mais ou menos U$ 50.000 e tres sonhos:
Comprar uma casa
Comprar um carro
Montar um negócio
Compravam a casa, compravam um carro, montavam um negocio…Quebravam, vendiam o carro, vendiam a casa e voltavam para mais 4 ou 5 anos no Japão.
Durante dois e anos e meio operamos o projeto. Era gratificante ver estes brasileiros que tinham sacrificado tanto lá fora, terem a oportunidade de pensar bem antes de investir seu suado dinheiro, ganho com tanto sacrificio. Foram mais de 6.000 dekasseguis que atendemos em São Paulo nestes dois anos. Destes, acredito que nem 600 montaram um negócio…Os outros 5.400 investiram em outras áreas mais seguras ou fizeram parcerias que lhes garantissem a manutenção dos investimentos feitos.
O projeto encerrou em 2003, quando assumiu o Governo Lula…Foi uma pena terem acabado com ele, pois acredito que poderíamos ter feito muito mais… Banzai!