EU JURO, by Tânia Machado

EMBAIXADA DO CANADÁ – 1989 | 21 de maio de 2009


Em 1989 conseguimos nosso primeiro convenio internacional. A Embaixada do Canadá nos fez uma doação de 20.000 dólares canadenses quando foi que montamos nosso primeiro Fundo de Comercialização de apoio ao artesão, utilizando os recursos para adiantar para ao artesão os valores correspondentes aos produtos deixados em consignação.
Este recurso, gerou um caso que hoje achamos muito engraçado, mas na época foi um terror.
Um dia, achamos uns produtos que estavam sendo “atravessados” por umas pessoas em Pedro Leopoldo e correndo atrás vimos que eram produzidos pelos presos do presidio de Ribeirão das Neves.
Resolvemos então ir ao presidio para conversar direto com os presos-artesãos. Fomos eu e a Claudinha Moura.
Sem avisar chegamos lá, batemos literalmente na porta e dissemos que queríamos falar com os presos que fabricavam artesanato.
Sem nos pedir nenhum documento nos deixaram entrar, somente pedindo que deixássemos as bolsas na entrada. Pegamos cartões de visita (nem sei o por que!!!), cigarros, dinheiro vivo e lá fomos nós para o tal de pavilhão 10.
O monitor que nos atendeu nos acompanhou, e eles tinham afastado todos os outros presos (mais ou menos uns 500) para o pavilhão de cima (que ficavam gritando de lá em coro: tesão, gostosas!!!) e no pavilhão 10 so ficaram 6 presos que faziam uns artesanatos de gosto duvidoso, mas como estava ficando nervosa com a situação, resolvemos comprar tudo o que ofereciam para ir embora de vez daquele local…
Na saída, perguntamos ao monitor se o diretor do presidio estava lá e ele disse que sim, então resolvemos visitá-lo. Chegando na sua sala, nos apresentamos e falamos que estavamos vendo a questão dos artesanatos fabricados pelos presos.
Como sentimos que o diretor estava aberto a uma conversa, falamos com ele:
– dr. Diretor, a condição de produção dos presos é muito ruim e relatamos algumas situações da produção(por exemplo: não havia lixa e eles lixavam as rodinhas dos carrinhos no cimento da cela).
– ele respondeu: como voces ficaram sabendo, estiveram aqui no sábado, dia de visita?
– respondemos: não, estávamos agora lá no Pavilhão 10
– e ele: COOOMMMMOOOO???? se dirigiu ao monitor e perguntou: quem as levou lá? e o monitor cinicamente respondeu: não sei não senhor…so vim traze-las aqui!
– eu então disse: realmente achei estrando, ninguém me revistou, não pediu minha identidade. Poderia estar levando drogas ou armas que ninguém ia ficar sabendo…
– e o Diretor: Minha senhora, o caso nem é tão somente este. A Sra. sabe quantas mulheres já estiveram no Pavilhão 10? Nenhuma! Nunca uma mulher entrou no Pavilhão 10! Se alguém chegasse aqui agora na minha sala dizendo que tinham duas mulheres sendo seviciadas no pavilhao10, sabe o que eu iria fazer? Nada. Iria embora pra casa, pois era totalmente impossivel que isto acontecesse…
Se o pânico já era grande, ficou pior ainda…Tratei de me despedir, agradecer e ir embora…
Chegando em Belo Horizonte, procurei uma amiga que era delegada e contei o caso, pois queria fazer uma denuncia. Ela então me disse: Tânia, agradeça a Deus voce ter saido de lá com vida…O monitor te levou lá, pensando em acontecer alguma coisa e com isto normalmente quem cai numa situação desta é o diretor…esqueça o assunto.
Assim tentei fazer, mas com o tempo recebia ligações dos presos dizendo…olha D. Tânia, sou o 12541, ou 8714 e assim por diante. Falei para eles que ia continuar ajudando, mas que nunca mais poria os pés no presidio…compramos ainda durante muito tempo.
Passado alguns anos, recebo uma visita na Mãos de Minas e a recepcionista me falou que era um egresso da Penitenciária que queria falar comigo! Mandei que entrasse e ele me falou uma fraze que nunca mais esqueci. “Dona Tânia, fui preso por assassinato e fiquei lá por 8 anos, 9 meses e 17 dias…neste tempo que estive lá a sra. foi a primeira e única a me tratar com dignidade e como gente (nesta hora pensei: ah meu Deus…vai me pedir emprego…). Sai tem duas semanas e ninguém esta disposto a me dar emprego. Preciso de um dinheiro para voltar para minha familia no interior e so a sra. pode me ajudar…
Fiquei tão feliz que ele não queria emprego que imediatamente dei para ele o dobro do dinheiro que ele me pediu.
Todo mundo ficou rindo de mim por ter sido enganada, já que diziam que ele deu um golpe.
Passados alguns meses recebi uma carta dele me agradecendo, dizendo que estava bem e junto com a familia no interior do estado e tinha retomado a sua vida…

Anúncios

Deixe um comentário »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: